Um sarau histórico.

Eu sou tão atento que só fui ver hoje. Mas aqui está: no jornal local Diário da Manhã, edição 12 de setembro, saiu o texto que você lê abaixo, com algumas modificações: aqui, na versão digital que simula a versão impressa, e aqui, na versão digital comum. Assim que conseguir comprar o jornal, posto uma foto pra deixar ainda mais gravado na memória de nós todos.




(Foto de Samara Nubia. Créditos.)


Os significados do sarau ocorrido domingo passado, dia da Independência, no Grande Hotel, não podem se reduzir a um álbum virtual de fotos. A simples realização do evento possui suas reentrâncias históricas que merecem ser exploradas (e é nesse sentido que digo que foi histórico).

Senão vejamos:

O evento contou, além do tradicional palco aberto, com uma exposição de Silvinha Biu e a presença de três coletivos: o Coletivoador, o Ocupa Madalena e o Coletivo Pagu. Seguindo o eixo temático "Sem medo de ser mulher", refletiu sobre as vicissitudes do ser mulher num contexto que exacerba o machismo e beira o extermínio, conforme os acontecimentos têm mostrado.

A presença do Coletivo Pagu merece destaque. Formado este ano na Faculdade de Direito da UFG, e paralelo a coletivos como o Geni, em Goiás Velho, ou o Bigode Grosso, na PUC Goiás, sua gênese e presença, como dito, vai de encontro a um passado per-passado. Me refiro em especial ao que nosso crítico maior, Gilberto Mendonça Teles, em texto ao O Popular de 16/08/64, posteriormente expandido e incluso no livro A crítica e o princípio do prazer, chama de "fisionomia um tanto matriarcal de nossas letras e, algumas vezes, da nossa própria histórica política". A análise história fornecida por Mendonça Teles de fato não nos deixa outro prospecto: embora em 1819, de acordo com os relatos de Saint-Hillarie, a mulher goiana fosse apenas fêmea num contexto em que contrair matrimônio era motivo de chacota, já em maio de 1890 veremos, no jornal Goyaz, um artigo sobre a Emancipação Feminina seguido de outros quatro entre 7 e 27 de junho. Em 1904, para continuarmos o panorama, a Academia de Letras de Vila-Boa possui como presidente uma mulher, D. Eurídice Natal, mãe de Colemar Natal e Silva, instaurando uma inédita ruptura com o padrão à francesa vigente no país (depois continuada em 1969 com a criação dA Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás). E assim seguimos: em 1906 com a estreia de Leodegária de Jesus aos quinze anos, em 1907 com o jornal A Rosa (já contando com Cora Coralina entre suas colaboradoras), em 1910 com o anuário do professor Francisco Ferreira dos Santos Azevedo e, passada a lacuna da transição do bulhonismo para o caiadismo (isto é, 1913-1924), em 1926 com o jornal O Lar, dirigido por cinco mulheres. Numa história literária que, à época de escrita do artigo, não contava com um arcabouço maior que 100 obras literárias, a fisionomia apontada é evidente.

Dentro, sendo assim, do prospecto apresentado por Mendonça Teles, há o Coletivo Pagu, há a história da Faculdade de Direito. Isto quer dizer: embora muito se louve o pioneirismo de José Xavier de Almeida no que tange a aprovação da Lei nº 186 de 1898, e embora todas as questões de fundo político-social muito bem estudadas por Miriam Fábia Alves em sua dissertação de mestrado sobre a história da instituição, é salutar a observação de Zoroastro Artiaga, em seu História de Goiás (1961), de que a iniciativa da luta pela Academia de Direito partiu de um grupo de mulheres da velha capital, o que pode ser conferido na ata de instalação da mesma, onde constam 16 assinaturas femininas.

Portanto, a persistência do Coletivo Feminista no seio da Faculdade de Direito é lógica e louvável, pra dizer o mínimo. Portanto, o enfoque dado à questão feminina no sarau do dia 7 é "apenas" retomar um fio da meada mais remoto do que se pode pensar. E aqui não me refiro só à poesia feminina goiana, mas à poesia feminina de maneira geral, linhagem tão antiga que, iniciada pela primeira poeta até hoje conhecida, uma princesa acádia de 2.200 a.C. chamada Enheduana, e que, passando por Safo, pela figura da Sulamita, pelas trovadoras medievais (trobairitz), por nomes como Louise Labé, Gaspara Stampa, Sóror Juana Inés de la Cruz ou Sóror Violante do Céu, deságua na produção de tantas brasileiras que se fizeram notáveis: Francisca Júlia, Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa, Helena Kolody, Hilda Hilst, Adélia Prado, Ana Cristina César, pra citarmos algumas das mais famosas, ou Colombina, Maria Ângela Alvim, Marly de Oliveira, Orides Fontela, Stela do Patrocínio, pra citarmos algumas injustamente esquecidas, ou, pra citarmos contemporâneas, Angélica Freitas, Marilia Garcia, Nina Rizzi, Juliana Krapp etc. Ou ainda, caso queiramos simplesmente apontar dois nomes regionais, a já citada Cora Coralina e Yêda Schmaltz, esta última contemplada com louvor pelo artigo de Mendonça Teles, quando ainda era inédita. (Também cito nossa crítica literária, muito bem representada nos nomes de Darcy França Denófrio e Moema de Castro.)

Não é mera proposição temática o que ocorreu no Grande Hotel. É mais profundo. Lúcia Maria Bastos P. Neves observa, em Cidadania e participação política na época da Independência do Brasil, que a ocasião do 7 de setembro trouxe consigo os primeiros debates, na imprensa, sobre os direitos políticos das mulheres. E mesmo que se alegue que um sarau temático como este poderia incorrer no perigo de ser sectário às avessas, definitivamente não foi o que se (ou)viu há uma semana nem o que se pode apreender do panorama atual, onde, como bem diz Vinicius Jatobá em texto para a Litro Magazine de 31/10/13, as mulheres brasileiras no geral têm chegado a resultados mais pertinentes que os homens. Por mais que não se queira entrar na discussão do "a escrita feminina é diferente da masculina?" (que possui respostas afirmativas na voz de uma Nelly Novaes Coelho, por exemplo), nós sabemos bem que o simples ato de se pôr a escrever, quem dirá tentar imprimir, divulgar!, não é tão simples sob garras sexistas. Afinal de contas, é com base na acuidade e amplitude da produção feminina contemporânea em âmbito nacional que deve causar perplexidade o número de mulheres convidadas para um festival como a FLIP nunca ter passado de 1/4, pra citarmos somente o caso que é tido como modelo nacional.

Assim sendo, o sarau ocorrido no dia 7... Ele revelou grandes nomes? Meus filhos vão estudá-lo pro Processo Seletivo 2064-1? Ele pode ser considerado histórico na mais questionável acepção do termo: imortal?

Não digo que perguntas assim devem deixar de ser feitas em prol de cotas para o cânone ou que o valha. Se o critério é o da qualidade individual, e nada mais, fique dito que o sarau teve grandes momentos como a apresentação do Ocupa Madalena, calcada no Teatro do Oprimido, a canção Assim parado de Kaio Bruno Dias, e as declamações de Adélia Prado e Lily Myers, por Beatriz Bonach, do Coletivo Pagu. Contudo, analisar a saúde de um momento literário apenas pelas pérolas expelidas é claramente pouco. Considerando que a trajetória poética de nosso Estado é incerta e pobre, o que se deve louvar e analisar, na posição de leitor contemporâneo, é sobretudo o impacto, a abertura e a comunicação com um veio, conforme vimos, per-passado. Estes são, diga-se de passagem, critérios muito mais sólidos para analisar um evento que buscou e busca reavivar de forma inteligente a poesia em nossas terras. E deste modo entendido, o sarau ocorrido no dia 7 foi bem sucedido.

Pois que se sucedam outros!

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