No centenário de Lupicínio Rodrigues:




Um pouco atrasado, é claro.

Contudo, observem que, já em 67, Augusto de Campos se referia ao esquecimento de Lupicínio. E conclui:

Que Lupicínio Rodrigues não tenha, hoje, um ou mais álbuns de suas músicas, interpretadas por ele mesmo, com acompanhamento adequado, é um crime de lesa-música do qual são cúmplices não só os que têm poderes para produzi-los como os que têm o direito de exigi-los: (...)

No livro Balanço da Bossa e Outras Bossas, editora Perspectiva, p. 229.

Claro que o panorama mudou de lá pra cá, e as palavras de Augusto não podem ser tomadas de forma literal. Um adendo de 74 ao ensaio, por exemplo, demonstra que algo havia sido lançado. Tudo, contudo, muito tímido. E não chego a reclamar necessariamente da decadência musical: creio que, fosse o caso de fazê-lo, então seria forçoso admitir que a decadência é mais profunda, o que não me parece muito correto. De 67 pra cá, é evidente, muita coisa boa foi produzida.

Não sou um crítico musical. Então deixo tais questões a quem entende.

Destaco, aqui, ainda do ensaio de Augusto, o paralelo com a linguagem carregada de óbvios ululantes de Lupicínio, posta ao lado da de Nelson Rodrigues, bem como nos paralelos com Shakespeare, Drummond, Cabral. Mais tarde, no livro O Anticrítico, Augusto, traduzindo Donne, se lembra do músico brasileiro e cria uma coisa danada de bonita:

A APARIÇÃO.

       Quando, assassina, o teu desdém tiver
       Feito de mim um morto contrafeito,
              E te julgares livre, enfim,
              Dos meus assédios e de mim,
       Meu fantasma virá ter ao teu leito,
       Onde serás, falsa vestal, uma mulher
       Qualquer nos braços de um outro qualquer.
       A tua vela, então, vai vacilar;
       Se cutucares o pobre comparsa
       Ao lado, ele por certo há de pensar,
       Ouvindo os teus suspiros e os teus ais,
              Que queres mais,
       E fingirá dormir, mísera farsa.
       Trêmula e só, entregue à tua sorte,
       Gelada até os ossos, vais penar,
              Mais morta do que a morte.
       O que eu direi não quero antecipar
       Para não minorar a tua dor.
       E como o amor que eu sinto também passa,
       Prefiro te ver morta de terror
       A viva e casta após esta ameaça.

O original, a título de comparação:

THE APPARITION.

       When by thy scorn, O murd'ress, I am dead
              And that thou think'st thee free
       From all solicitation from me,
       Then shall my ghost come to thy bed,
       And thee, feign'd vestal, in worse arms shall see;
       Then thy sick taper will begin to wink,
       And he, whose thou art then, being tir'd before,
       Will, if thou stir, or pinch to wake him, think
              Thou call'st for more,
       And in false sleep will from thee shrink;
       And then, poor aspen wretch, neglected thou
       Bath'd in a cold quicksilver sweat wilt lie
              A verier ghost than I.
       What I will say, I will not tell thee now,
       Lest that preserve thee; and since my love is spent,
       I'had rather thou shouldst painfully repent,
       Than by my threat'nings rest still innocent.

O que Augusto nos diz no prefácio à tradução:

              (...)

       aqui o tema do amor negado ou sonegado
       é só mais uma vez refletido
       na dupla morte:
       a amada "assassina"
       será por sua vez assassinada
       pelo fantasma do amante
       todo o poema estremece
       sob o gume homicida
       da maldição-vingança
       com aquele "pathos" corrosivo da paixão
       que "makes men mad" -
       shakespeare ou gesualdo
       donne ou lupicínio:
       a tua vela então vai vacilar
       ("você há de rolar como as pedras...")

       esses lances de intercurso
       entre o erudito e o popular
       perturbam certos espíritos elitistas
       tanto quanto ofendem os papagaios populistas
       mas foi sem esforço
       que introduzi na tradução de the apparition
       coisas coloquiais
       (o coloquial é uma característica de donne)
       que me vieram à cabeça
       via música popular
              (...)

E ainda, para completar o arco apontado por Augusto, Otelo, ato IV, cena II, na tradução de Onestaldo Pennafort:

              (...)

       DESDÊMONA: Creio que o meu senhor me considera honesta...
       OTELO:             Oh! sim, tal como as moscas de verão,
                                  que nos açougues, umas sobre as outras,
                                  desovam na sujeira. Erva daninha,
                                  adorável e bela, recendente
                                  a perfumes suaves que entontecem
                                  de delícias e fazem desmaiar...
                                  antes nunca tivesses vindo ao mundo!
       DESDÊMONA: Oh! meu Deus! que fiz eu de mal sem o saber?
       OTELO:             Pois esse pergaminho alvíssimo, esse livro
                                  tão precioso terá sido feito
                                  para escrever-se nele "prostituta"?
                                  Que fizeste de mal? E ainda perguntas?
                                  A mim? Ó vaso público! Bastava
                                  que eu pensasse em narrar tuas façanhas,
                                  para que uma fornalha ardesse no meu rosto
                                  e reduzisse a cinzas o pudor.
                                  Que fizeste de mal? Se eu o disser,
                                  o sol tapa o nariz e a lua baixa os olhos.
                                  E até o próprio vento abelhudo e escabroso,
                                  que anda beijando tudo quanto encontra,
                                  se encolheria, mudo e quieto, nas cavernas
                                  da terra, para não me ouvir falar!
                                  Que fizeste de mal, sua rameira?

              (...)

Não custa lembrar o corno (corno?) mais famoso da nossa literatura:

CXXXV. Otelo.

Jantei fora. De noite fui ao teatro. Representava-se justamente Otelo, que eu não vira nem lera nunca; sabia apenas o assunto, e estimei a coincidência. Vi as grandes raivas do mouro, por causa de um lenço. --um simples lenço!--e aqui dou matéria à meditação dos psicólogos deste e de outros continentes, pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. Os lenços perderam-se. hoje são precisos os próprios lençóis; alguma vez nem lençóis há e valem só as camisas. Tais eram as idéias que me iam passando pela cabeça, vagas e turvas, à medida que o mouro rolava convulso, e Iago destilava a sua calúnia. Nos intervalos não me levantava da cadeira- não queria expor-me a encontrar algum conhecido. As senhoras ficavam quase todas nos camarotes, enquanto os homens iam fumar. Então eu perguntava a mim mesmo se alguma daquelas não teria amado alguém que jazesse agora no cemitério, e vinham outras incoerências, até que o pano subia e continuava a peça. O último ato mostrou-me que não eu, mas Capitu devia morrer. Ouvi as súplicas de Desdêmona, as suas palavras amorosas e puras, e a fúria do mouro, e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público. 
--E era inocente, vinha eu dizendo rua abaixo; -- que faria o público, se ela deveras fosse culpada, tão culpada como Capitu? E que morte lhe daria o mouro? Um travesseiro não bastaria; era preciso sangue e fogo, um fogo intenso e vasto, que a consumisse de todo, e a reduzisse a pó, e o pó seria lançado ao vento, como eterna extinção... 
(...)

Portanto, feliz centenário, Lupicínio.

Comentários