Banzando XI.



Kongo Roux, poema "dadaísta" de Ezra Pound. Entre aspas pois, de acordo com a Marjorie Perloff em The search for 'Prime Words': Pound, Duchamp and the Nominalist Ethos (aqui), o poema não seria totalmente dadaísta graças ao tom de ataque (provavelmente vinculado aos ideais da revista Blast, quem sabe a proposição 9 do Manifesto: "We only want Humour if it has fought like Tragedy.") e graças às referências históricas do mesmo.

Estas são, aliás, o tema do ensaio da Perloff, que analisa a questão nominalista na poesia do Pound posta ao lado do nominalismo na arte do Duchamp. Pois pra quê, por exemplo, o uso tão extensivo de nomes próprios ou de expressões estrangeiras na estrutura geral de uma obra como The Cantos? A resposta, tentando encurtar pra vocês o ensaio numa única frase, é:

(...) is thus offset by the recycling of a given unit in a context that changes its thrust in what is in fact a dense economy of meanings.

Onde a busca pelo que Duchamp chamou de Prime Words ("'divisible' only by themselves and by unity", isto é, irredutíveis a outras mais simples ou mais abstratas) seria o que norteia a lógica nominalista apontada pela Perloff na poesia do Pound e, claro, na obra do Duchamp.

Mas não só isso: é preciso também lembrar a lógica do infrathin (ou inframince), conceito duchampiano mais uma vez, isto é, a diferença mínima entre duas coisas ou entre duas palavras, irredutível por si só, de modo que o uso de um termo estrangeiro ou a nomeação específica de um lugar na estrutura de um poema, bem como na exposição de um mictório invertido denominado Fountain, não deve ser vista como uma espécie de exibicionismo, mas, pelo contrário, uma maneira de fazer com que o leitor se atente às DIFERENÇAS que a obra traz: esse termo estrangeiro poderia ser simplesmente traduzido e só? o mictório é o mesmo mictório que encontro no banheiro ou agora ele tem algo de novo? etc.




POESIA
(Marianne Moore, trad. Augusto de Campos)
Eu também a abomino.
Lendo-a, porém, com total desdém, a gente des-
cobre ali, afinal, um lugar para o genuíno.

§

POESIA
(trad. José Antonio Arantes)
Também não gosto.
Lendo-a, no entanto, com total desprezo, a gente acaba descobrindo
nela, afinal de contas, um lugar para o genuíno.

§

trad. Anderson Lucarezi
em: Tudo está dito, 19/02/13, aqui.


§

POESIA
(trad. eu)
Eu, também, não gosto.
Mas, lendo-a com total menosprezo, no fim o
Que se acha nela é um local pro genuíno.

§

POETRY

I, too, dislike it.
Reading it, however, with a perfect contempt for it, one discovers in
it, after all, a place for the genuine.

§

Há uma versão mais longa e antiga do poema, com 36 versos, que pode ser lida, na tradução do Augusto, aqui (José Antonio Arantes também o traduziu; cf. Poemas, Cia das Letras, 1991). Análises sobre o poema aqui. Análise da tradução do Augusto aqui. Minha versão, que traduz os versos 2 e 3 para versos de doze sílabas, é imprestável de ser transposta para dentro do esquema métrico da versão maior.

§

Na foto, a autora em 53. Foto curiosa. Mas de se lembrar que ela gostava muito de beisebol, tendo inclusive escrito sobre o tema: leia mais aqui.


POEMA IRÔNICO SOBRE PROSTITUIÇÃO.
George Orwell, trad. eu.
Quando jovem e insensato,
Na Mandalay distante
Gamei numa birmanesa
Amável como o instante.

Ornada de ouro luzente,
Seu dente reluzia;
Eu disse: "por vinte moedas
Você... você iria?"

O ser mais amável de todos,
Ela me olhou com afinco
E, em voz infantil de virgem,
Fechou por vinte-e-cinco.

§

IRONIC POEM ABOUT PROSTITUTION.

When I was young and had no sense
In far-off Mandalay
I lost my heart to a Burmese girl
As lovely as the day.

Her skin was gold, her hair was jet,
Her teeth were ivory;
I said, "for twenty silver pieces,
Maiden, sleep with me".

She looked at me, so pure, so sad,
The loveliest thing alive,
And in her lisping, virgin voice,
Stood out for twenty-five.





Óssip Mandelstam (1891 - 1938), o homem que tirou sarro da cara do Stálin e um dos poetas mais fortes e inovadores do século passado. "(...) Preso em 1934, por ter escrito versos satíricos contra Stálin, sentenciado a três anos de exílio na remota Cherdyn, tenta o suicídio. É, a seguir, confinado na cidade de Vorôniej (1935 - 1937). Detido pela segunda vez em 1938 e condenado a 5 anos de trabalhos forçados, morreu, em data incerta, num 'campo de passagem', enquanto aguardava a deportação para um dos campos de reeducação da Sibéria. (...)"

Citação e poema retirados de Poesia da Recusa, editora Perspectiva, com traduções de Augusto de Campos para Kulhmann, Mallarmé, Blok, Akhmátova, Pasternak, Mandelstam, Iessiênin, Tzvietáieva, Yeats, Stein, Stevens, Crane e Dylan Thomas.

§

(trad. Augusto de Campos)
Vivemos sem sentir o chão nos pés,
A dez passos não se ouve a nossa voz.

Uma palavra a mais e o montanhez
Do Kremlin vem: chegou a nossa vez.

Seus dedos grossos são vermes obesos.
Suas palavras caem como pesos.

Baratas, seus bigodes dão risotas.
Brilham como um espelho as suas botas.

Cercado de um margote subserviente,
Brinca de gato com essa subgente.

Um mia, outro assobia, um outro geme,
Somente ele troveja e tudo treme.

Forja decretos como ferraduras:
Nos olhos! Nos quadris! Nas dentaduras!

Frui as sentenças como framboesas.
O amigo Urso abraça suas presas.

§

Nota do Augusto para o último verso: "A tradução literal desta última linha equivale a: 'O largo peito do ossétio' (cidadão de Ossétia, da Geórgia, região de origem de Stálin). Variante literal: 'Um abraço de Ossétia às suas presas'."

§

Ensaio biográfico sobre o autor, de Gilfrancisco, aqui.

Sobre a arte russa moderna e regime soviético, cumpre lembrar Paulo Leminski no final de sua biografia sobre Trótski:

Mas a liberdade artística que eles representavam, no plano da forma e da inovação de linguagem, não era compatível com a consolidação do 'socialismo num só país'. A maior parte deles teve o destino trágico ou doloroso: exilados, desaparecidos, suicidados, confinados em campos de concentração ou simplesmente castrados em sua criatividade pela estupidez artística dos funcionários do Partido, agora, Estado. // A inovação artística se dá muito bem nas temperaturas revolucionárias. Mas fenece quando os regimes se consolidam. 
(...) 
A forma é o social na arte, observou o stalinista húngaro Lukács. 
Quem mexe nas formas está mexendo no que não é seu. A produção artística soviética congelou-se no academicismo em todas as áreas, repudiando o não figuirativo na pintura, a experimentação verbal na poesia, a inovação estrutural no romance, sempre alegando a necessidade didática e pedagógica de satisfazer o gosto simples das grandes massas, afinal, as donas do país... 
(...) 
Essa situação choca ainda mais, quando constatamos que, num determinado plano, a URSS é uma das nações do mundo onde a cultura artística e literária é mais desenvolvida. O povo russo dispõe das maiores facilidades para escolarização e acesso a livros. O ensino é gratuito. Os livros, imensas edições, são os mais baratos do mundo. As realizações artísticas são estimuladas, financiadas, premiadas. Os artistas, desde que não incomodem, encontram as mais amplas facilidades de sobrevivência. 
Mas o exercício da criatividade artística continua sujeito a todo tipo de restrições prévias, que vão do sexual ao formal. Nesse sentido, a arte soviética, a nós, ocidentais, lembra mais o artesanato do que a arte: é o mundo paralisado do artesanato, a arte parada, artificialmente, num determinado momento da sua evolução.

§

Sobre o que Leminski disse, posso chamar também de "O porquê de o terrorismo poético ser peculiarmente linguístico."

§

E, citando Ricardo Domeneck, num dos ensaios mais pertinentes sobre poesia dos últimos tempos (aqui),

(...) Por que ainda lemos o "Epigrama" em que Ósip Mandelshtam (1891-1938) satiriza Stálin? O poeta russo tem textos muito melhores, muito mais interessantes. Mas eu diria que, quando Stálin for mais um nome da longuíssima lista de ditadores genocidas do século XX, algum poeta do futuro possa ainda encontrar, neste poema, estratégias para satirizar o ditador genocida governando seu país do futuro. Acabando, provavelmente, também em um campo de trabalhos forçados, como Mandelshtam.

§

Ainda sobre Mandelstam, belas metáforas no ensaio O que é o contemporâneo?, de Agamben.


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