A visão política de Shakespeare.



Uma apresentação que preparei para a matéria de Teoria Geral do Estado, segundo semestre de 2013. Discutíamos a peça O mercador de Veneza. Fiquei com o arremate. Com mais ou menos um mês de pesquisa, o resultado foi este. Check it out. As duas fontes principais foram Barbara Heliodora e Jan Kott.



A GUERRA DAS ROSAS teve ponto de partida na deposição de RICARDO II por Henrique BOLINGBROKE, posteriormente HENRIQUE IV. Prossegue no reinado de HENRIQUE V e só termina no de HENRIQUE VI.

E não termina no de Henrique VI.

O conteúdo da guerra é o embate entre os York e os Lancaster. Após o assassinato de Henrique VI, um Lancaster, caberia a EDUARDO IV terminar de exterminar os Lancaster e, ironicamente, caberia a RICARDO III, um York, terminar de exterminar os York.

Diante desse panorama, sobe ao trono HENRIQUE VII, provavelmente o rei com menos direito ao trono da história da Inglaterra. Sabiamente, ele fomentou a ideia de que o rei Arthur não havia morrido, de modo que seu reinado, de Henrique VII, teria linhagem direta em Arthur.

Seu filho, HENRIQUE VIII, não precisou de artifícios assim para legitimar-se. Era filho dum casamento York-Lancaster. Na verdade, o problema com Henrique VIII era o fogo no rabo mesmo. E o desespero particular dos monarcas: “poxa vida, mas só meninas?!” E, é claro, a constante ameaça duma guerra civil católicos X protestantes que percorreria a DINASTIA TUDOR.

De certo modo mitigando este mal, o rei unificou os títulos de pontífice e rei graças ao ATO DE SUPREMACIA, caracterizando a REFORMA RELIGIOSA que tão importante seria para o desenvolvimento inglês.

Disse que mitigou o mal da guerra civil; mas, na verdade, mitigou mais ou menos. A iminência de um conflito era evidente, e mesmo o governo moderado de Henrique VIII foi, com o tempo, se tornando sangrento para com rivais católicos, o que é visto na execução de Thomas More em 1535.

Após seu reinado, subiam ao trono seus filhos EDUARDO IV e depois MARY. O fantasma da Guerra das Rosas novamente ressurgia: o que era importante ao reino foi passando a ser o que era importante aos York ou Lancaster, aos católicos ou aos protestantes.

O reinado de Eduardo IV, curto, não foi nada de mais. O de Mary até que foi: católica, ela tentou reverter um processo que já se consolidava, o que inevitavelmente levou ao uso indiscriminado de métodos de execução. Tanto que não é a toa que sua alcunha hoje é Blood Mary.

Após sua morte, sobe ELIZABETH I, também filha de Henrique VIII. Com grande habilidade, a rainha conduz a Inglaterra numa época de esplendor tanto científico quanto artístico, mantendo, até certo nível (isto é, sem abusar), a liberdade de culto. Com uma rede de controle que se perfazia em grande parte graças à espionagem e a uma educação doutrinadora, é provável que a única passagem mais energética do reinado de Elizabeth tenha sido a execução de sua irmã Mary Stuart, particularmente perigosa se considerarmos que, com nove dias de idade, era rainha da Escócia e que, graças à morte de seu primeiro esposo Francisco II da França, ela podia ascender à Coroa Inglesa sem que a Coroa Inglesa fosse dissolvida pela Coroa Francesa.

A concepção política dos Tudors, após este breve apanhado histórico, era a de um governo paternalista que, conduzindo o povo como crianças, chegasse à estabilidade política tão característica de seu governo: ou seja, a resolução de conflitos, o que obrigava os Tudors a recuperar e a construir uma soberania que fosse convincente e popular. Graças às homílias que produziam, onde uma noção de ordem universal era apontada (ou seja, todas as coisas tinham seu lugar na escala maior de tudo, desde o lodo até a transcendência dos anjos), e graças a uma liberdade conduzida e controlada, o esplendor cultural e a relativa tolerância da época pode ser explicada. Mas sempre sem deixarmos de lado os exageros, visto que, sem espanto nenhum, o reinado de Elizabeth foi feito no fio da navalha, e mesmo a condução relativamente bem sucedida de JAIME I não foi o suficiente para mitigar o fato de que, décadas depois, a GUERRA CIVIL INGLESA teria início.

Foi neste contexto que Shakespeare se formou. Filho de um luveiro e posteriormente prefeito de Stratford-upon-Avon, JOHN SHAKESPEARE, o pequeno William conhecia de perto o modo de condução de governo dos Tudors – e conhecia, especialmente, o fato de que, não fosse essa paz acarretada pelos Tudors, sua família simplesmente não teria o esplendor que durante um bom tempo gozou. Além, é claro, de, por mais que sua educação não tenha alcançado um nível superior, ela foi no mínimo muito bem conduzida em seu nível básico se nos lembrarmos que a escola de Stratford pagava um dos melhores salários para professores da época, o que indica que Shakespeare teve bons professores enquanto frequentou a escola. Una-se a isto a concepção ordeira e harmônica apontada nas homílias, mas sem toda a universalidade das mesmas, e una-se a leituras posteriores como Plutarco, que dissecavam a constituição dos bons e dos maus governos, das virtudes e vicissitudes do jogo do poder, e podemos ter uma noção clara da visão política shakespeariana: ou seja, um monarca que não busque a exaltação virtuosística de si próprio, mas que governe com correção, que conduza bem o reino e, não raro, conduza bem o povo de modo justo e misericordioso.

Naturalmente isso não quer dizer que Shakespeare floreasse a coisa toda. Dito por JAN KOTT em SHAKESPEARE, NOSSO CONTEMPORÂNEO, Shakespeare talvez pensasse a estrutura do poder como um GRANDE MECANISMO, ou seja, alguém sobe ao trono com pompas festivas, depois ao seu redor facções vão sendo formadas, essas facções planejam a derrubada do rei, o rei é deposto e trancafiado na Torre e logo ouvir-se-ão as mesmas pompas que no começo do espetáculo foram ouvidas.

Vamos fazer um rápido exame de algumas peças shakespearianas e vamos notando como sua concepção política vai evoluindo.

A obra shakespeariana é dividida em 4 partes: as comédias, as tragédias, as peças históricas e os romances. Existe pouca concepção política nas comédias; O MERCADOR DE VENEZA é mais ou menos uma exceção. A concepção política nos romances é também complexa pois eles todos são um grande fazer-as-pazes; além, é claro, do fato de que a classificação dos romances é muito problemática: eles são tecnicamente tragédias que terminam bem.

As peças históricas, antes de Shakespeare, eram quase que odes laudatórias puras e simples. Com Shakespeare, ganharão uma dimensão política que podemos enxergar só esparsamente em contemporâneos como Marlowe, Kyd, Johnson, embora cada um deles tenha sido importante para a guinada teatral elisabetana. Suas peças históricas são divididas em 2 tetralogias: a primeira tetralogia, composta das 3 partes de Henrique VI e mais a peça Ricardo III, e a segunda tetralogia, composta da peça Ricardo II, as duas partes de Henrique IV e a peça Henrique V.

Na primeira tetralogia, Shakespeare examina o quão danoso é o governo de um rei ruim. Não necessariamente um rei mau ou um usurpador. Por exemplo, HENRIQUE VI é até gente boa. Mas é omisso. Em determinada parte da trilogia, senta e pensa sobre como deve ser bom ser um campônio, vendo os segundos se tornarem minutos, os minutos em horas, as horas em dias, os dias... Resultado: na primeira parte os York começam a exercer domínio em sua casa; na segunda, apoiam um levante comandado por Jack Cade; e na terceira, coroam Henrique VI. Sim, isso mesmo que vocês ouviram: os York coroam Henrique VI. Com uma coroa de papel, coroam a cabeça decepada de Henrique VI.

RICARDO III consegue ser ainda mais nefasta. O personagem Ricardo III é mau, é vilão. Em determinada parte, diz: “Ricardo ama Ricardo; eu sou eu mesmo. / Haverá aqui dentro um criminoso? / Não... Sim: eu mesmo. (...)” Mata seus sobrinhos, seus aliados, irmãos de casa, inimigos, esposa, parentes... Só os assassinos parecem ter escrúpulos na peça toda antes de matarem o duque de Clarence. Mas isso foi era lá no fim do primeiro ato. E Ricardo não estava nem aí. Em sua última fala, diz trocar o reino por um cavalo. É tanta maledicência regada a um humor negro que mesmo os estudiosos mais entusiastas da obra de Shakespeare, como Harold Bloom, repreendem algumas passagens da peça como possuindo uma construção inábil: contudo, o que não percebem é que Ricardo é uma personagem com apelo público; tentar se limitar à análise dos discursos narcisistas como esse que citei é jogar fora o que é justamente a grande sacada da peça, que não é nem tanto o caráter psicológico de Ricardo, mas a cumplicidade vilão-público que o texto constrói.

Já a segunda tetralogia examina o contrário: as benesses de um bom governo. O problema é que ela começa de um modo meio incômodo... Falo assim: tudo bem Christopher Marlowe retratar Eduardo II com merda até o pescoço. Ele não era um Tudor. Mas agora retratar a deposição de um rei em seus mínimos detalhes?...

RICARDO II no começo da peça é um rei abarrotado de pompa. Suas falas são salpicadas de dísticos rimados. Mas ele é prepotente e não tem senso prático. Está no Grande Mecanismo, é claro. Numa cena famosa da peça, chama os presentes a se sentarem e falarem dos reis que já morreram. E termina dizendo: “eu preciso de pão e busco amigos, você pode dizer que sou rei?” Isto é, ele, na concepção divina da realeza, não acreditava que os reis pudessem ter amigos nem se alimentarem. E isso nos conduz a outra cena, também icônica, que é quando ele segura um espelho e vê sua face desgastada. Já havia sido deposto por Henrique BOLINGBROKE. Só que o destronamento do Ricardo II não foi obra da maldade ou da ambição. Foi talvez até mesmo uma necessidade, e Shakespeare tem a cautela de não retratar o Henrique IV como um ambicioso à la maniere de Ricardo III. Tanto é que o Henrique IV não tem um monólogo na peça toda. Além, é claro, de que Shakespeare, a essa época, já morava em Londres há um tempinho. Ele não mais caía na balela caricatural que a época adorava fazer com MAQUIAVEL. Das três citações literais do nome de Maquiavel que existem na obra de Shakespeare, duas delas estão na boca de um deturpador por excelência, ou seja, Ricardo III na terceira parte de Henrique VI, e outra está numa peça um tanto quanto espúria e permeada de chacotas, que é As Alegres Matronas de Windsor. O fato é que, a essa época, Shakespeare já havia tido contato com a obra de Maquiavel, e já pudera desenvolver e até mesmo acoplar o conceito de virtù como sendo fundamental para a composição de um bom governo.

E HENRIQUE IV é o primeiro monarca que de fato exibe essa característica. Se em Ricardo II ainda haviam dúvidas, nas duas peças que recebem seu nome, isso se desvanece completamente – ainda mais quando observamos a condução notória com que ele guiou a Guerra das Rosas. Em determinada parte das peças, Henrique IV monologa e acaba dizendo, pois não conseguira dormir: “dorme, inquieta cabeça coroada.” Pela primeira vez, ele chega à compreensão de que o rei não está fora das contingências humanas; ele aceita que o rei possui responsabilidades pessoais, e é por isso mesmo, por essa responsabilidade que ele aceita para si próprio, que a concepção muda radicalmente.

Só que as duas partes de Henrique IV não guardam só isso de fabuloso. Aqui, Shakespeare introduz uma sacada de mestre que é a contraposição entre a vida da corte e a vida fora da corte. As peças Henrique IV não são muito lembradas pela personagem Henrique IV. Elas geralmente são lembradas pelas perambulações entre o príncipe HAL, futuro Henrique V, e seu infiel e corrupto escudeiro FALSTAFF. Ou seja, graças a essa construção, Shakespeare traz à tona tanto a contraposição dramática, que ele exploraria muito daqui pra frente, quanto os bastidores do reino. A boemia do príncipe é sua escola de campo: andando em meio às putas e bêbados, ele saberá o quê e como fazer. E é por isso que, para o descontentamento de muitos, inclusive da rainha Elizabeth, na segunda parte Hal tenha de se livrar de Falstaff.

Pois ele precisava assumir responsabilidades maiores, e é assim que ele entra em HENRIQUE V como o melhor monarca do cânone shakespeariano. Por exemplo, ele anda em meio aos batalhões de guerra, disfarçado, só pra saber como os soldados estavam, o que sentiam. Seu pai já havia feito o mesmo, mas em Henrique V isso já tem longa data. Ele não deixa de se preocupar com as implicações de seus atos, não deixa de se lembrar que é humano, e tanto é que até mesmo na escolha do casamento ele é feliz, para além de suas virtudes de guerreiro e conhecedor de muitos assuntos.

Findo esse panorama, torna-se claro que Shakespeare tratou com um grau de seriedade até hoje raro o âmbito da política em suas peças. Ele prossegue suas investigações também nas tragédias, mas aqui a coisa é ainda mais acentuada pois ele trata primordialmente do ser humano incluso na estrutura trágica maior. Esta, estudada por A. C. Bradley, é basicamente um erro humano, um erro tão somente humano, um erro trágico, que desencadeia uma catástrofe generalizada e que termina com a morte e a sensação de desperdício. Mas a ideia basicamente é essa: um erro humano que degringola tudo.

Vamos fazer um comentário sobre apenas uma delas: ROMEU E JULIETA.

Todos conhecem o enredo da peça. Mas se quisermos vislumbrar uma estrutura política da mesma, temos que nos focar em uma figura: o Príncipe Escalus. Pois Romeu e Julieta, como mencionado em sala de aula, trata também de como a aurora do Estado Italiano pôde ser antevista. E a senha de acesso continua sendo a mesma de Dante: unificação, pôr ordem no celeiro. Como no corpo restante das tragédias, Shakespeare não trata disso primordialmente; seu objetivo é o de falar do homem numa situação trágica que acarreta tanto a tragédia política quanto, posto que as tragédias shakespearianas terminam mais ou menos num happy ending, a reconstrução política.

O príncipe Escalus aparece energicamente em três partes. Na primeira, logo na primeira cena do primeiro ato, os Montéquios e Capuletos se estranharam e ocasionaram um arranca-rabo rotineiro. O príncipe entra em cena e fica furioso. É uma boa pessoa, certamente possui a virtù maquiavélica; mas, frente ao desencadeamento da tragédia, será pouco. Isto é: não será nada. A única forma de parar a tragédia é com a morte, é com a destruição. Assim, valendo-me da tradução de Onestaldo de Pennafort, o príncipe Escalus diz:

      Por vossa causa, velho Capuleto,
      E, Montecchio, também por vossa causa,
      Já três guerras civis, por ninharias,
      Perturbaram a paz das nossas ruas
                        (...)
      Se outra vez perturbardes nossas ruas,
      Com as vidas pagareis a afronta à paz.
      Por esta vez, que se retirem todos.
      Tu, Capuleto, vem comigo, e tu,
      Montecchio, à tarde me procurarás,
      Na sala de audiência, em Vilafranca,
      A fim de que melhor te ponha a par
      Das minhas decisões ulteriores
      Sobre este caso. (...)

A tradução de Onestaldo é notável em muitos aspectos, especialmente no de ter sido a primeira a ter a grandeza de manter as passagens em prosa e em verso do texto shakespeariano. Mas aqui ele erra a mão, no finalzinho. A tal sala de audiência não fica em Vilafranca, mas em Freetown, e Shakespeare é ainda mais claro: “our common judgement-place.” Esse pode parecer ser um detalhe pequeno, mas é interessante pois quem mora em Vilafranca é o príncipe Escalus, ou seja, ele mora num castelo ao passo que os Capuletos moram numa casa mercante.

A bronca parece ter surtido efeito. Cenas depois, o senhor Capuleto comentará com a esposa:

      Montecchio deu também sua palavra.
      Penso, aliás, que não será difícil
      A velhos como nós viver em paz.

Besteira. A transformação de caráter do senhor Capuleto ao longo da peça demonstrará bem o contrário. E, na segunda aparição do príncipe Escalus, de novo a mesma coisa. Na cena 1 do ato 3, ocorre mais uma vez um pega-pega entre Montéquios e Capuletos e, no fim, o Montéquio Mercúrio e o Capuleto Teobaldo são mortos. O príncipe entra, furioso, e diz:

      Até eu já sofri as consequências
      Do vosso ódio e de suas violências.
      Já é o sangue dos meus que se derrama aqui,
      Nestas lutas brutais. Mas pelo que sofri
      Saberei infringir-vos tal castigo,
      Que chorareis também esta perda comigo.
      Ficarei surdo a súplicas e escusas.
      Nem lágrimas nem rogos poderão
      Resgatar nunca o desrespeito à lei.
      Não o tentem, porque tudo será em vão.
      Romeu deve partir já, sem demora.
      Se ainda fôr visto aqui, morrerá na mesma hora.
      Levem daqui o corpo e cumpram minhas ordens.
      A clemência com o crime é a pior das desordens.

Vamos primeiro deixar algumas coisas claras: quando ele diz que até ele já sofreu com isso tudo, entenda-se: o príncipe Escalus era parente de Mercúrio. Mas, ao contrário do que hoje poderíamos pensar, seu caráter de governante exemplar demonstra, ou melhor, vai demonstrando ao longo da peça que ele sabe separar as coisas e sabe ser justo. Aqui ele já fala no respeito às leis. E aqui suas ordens são cumpridas, mas não porque ele passou a ser respeitado. Na verdade, suas ordens passam a ser cumpridas pois a tragédia já havia sido iniciada e sua opinião vai de encontro ao funcionamento dela: ao banir Romeu é que a coisa termina de ir por água abaixo.

Por fim, a terceira aparição digna de nota do nosso querido príncipe Escalus é no finalzinho da peça. Romeu e Julieta já se mataram de vez e o príncipe veio para escutar os depoimentos. Chega até a pedir provas substanciais ao Frade Laurêncio, que inventou todo o esquema do veneno falso etc e tal. E, após confirmar que é verdade mesmo!, termina a peça dizendo:

      Sombria paz com esta manhã renasce!
      O sol, horrorizado, oculta a face.
      Vamos, pois temos muito o que falar
      Sobre isto: a alguns, punir; a outros, perdoar.

Shakespeare não deixa claro que tipos de punições vão rolar. Se tomarmos como base as fontes textuais para a tragédia Romeu e Julieta, vai sobrar pra Ama, pro criado de Páris, Pedro, pro boticário que vendeu o veneno pra Romeu etc. Ou seja, nada daquilo, aos Montéquios e Capuletos, de pagar com a cabeça. Mas o mais importante já havia sido construído: isto é, o sentimento de que na desordem simplesmente não dá. Por mais que exista um príncipe justo e com um senso prático muito bem dado, com mão firme, Shakespeare demonstra em suas tragédias que a coisa simplesmente degringola mesmo se você não tiver a estabilidade. Isso, como vimos, é fundamental na concepção política shakespeariana, advinda da estabilidade do governo dos Tudors. Mas podemos dizer, de modo geral, que, nas tragédias, a necessidade e a urgência dessa harmonia são fundamentais para a saúde e talvez mesmo a existência da máquina governamental, um Grande Mecanismo que seja.

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