Elizabeth Bishop menina.




A infância é um tema caro na obra de Bishop. Mas, sempre quando ele aparece, ele aparece ao lado de outros temas, como se, para Bishop, a infância não fosse um tema poético que se sustentasse por si só, necessitando sempre de um conluio com outros. Por exemplo In the waiting room, onde a infância vai de encontro ao tema da descoberta da feminilidade a partir da empatia. E assim iríamos galgando exemplos e exemplos até chegarmos naquele que é, do que pude pesquisar, o único poema infantil de Bishop.

Do ponto de vista formal, ele se vale do famosíssimo ballad meter, isto é, metro com 4-3-4-3 pés e rimas pelo menos -A-A (ou ABAB) que pode ser traduzido ou literalmente, 8-6-8-6 sílabas, ou então pode ser traduzido para nossa quadrinha popular (redondilhas maiores). Foi a segunda opção que usei.

Do ponto de vista rímico, nada de novo no front. Só destaco a sétima estrofe, que, no original, possui uma rima parcial: faces-voices. Por quê? Aqui é que está a genialidade do poema de Bishop, visto que ela basicamente representa a educação infantil tanto num sentido positivo (ou seja, é legal que crianças tenham boas maneiras, não é?) mas ao mesmo tempo a retrata num ambiente tipicamente moderno (ou seja, Bishop retrata como ela, ao lado de seu avô William Bulmer, recebia um valioso conteúdo humano [boas maneiras, educação, empatia] enquanto, a seu redor, as pessoas o perdiam). É o que a alteração rímica demonstra, visto que, de resto, ela foi muito utilizada nos primeiros momentos modernistas lá fora (bastando que se olhe para a poesia de guerra dum Wilfred Owen). E é também uma possibilidade abarcada pelo título, que não se refere exatamente a good manners, mas apenas a manners. Logo, que maneiras seriam essas? As boas ou as más? As que eu aprendi com vovô ou as que o mundo me obrigou a perder? (E o tema da perda, é claro, é ainda mais poderoso que o da infância na poesia de Bishop, bastando que se cite o arquifamoso One Art.)

Assim, como a princípio um poema simples, o poema de Bishop consegue demonstrar uma realidade muito mais ampla, sem perder, com isso, o encanto que certamente ele terá para com o público infantil. Podemos obviamente objetar que uma criança dificilmente vai perceber a marcha da modernização que o poema demonstra, de detalhes formais como o da rima a detalhes imagéticos como o do chicote do vovô ("My grandfather's whip tapped his hat.", segundo verso da segunda estrofe) ou o vai-e-vem dos carros contraposto ao cansaço das éguas. Sim, correto. Mas não podemos não só menosprezar a inteligência da criança, como não podemos partir do princípio que poesia infantil deve ser poesia idiota. Primeiro pois, como mostra Eduardo Kirchof em Poesia infantil e valor literário: um ponto de vista semiótico, a base de composição da poesia infantil é exatamente a mesma da poesia adulta, e muitos resultados de uma são do mesmo quilate da outra; e segundo pois não podemos nos esquecer que, mesmo não possuindo em mãos materiais para uma análise contextual que sem dúvidas o poema de Bishop requer, a criança ainda assim poderá se solidarizar com a atitude do vovô de pensar nas éguas cansadas ou na situação no mínimo interessante do corvo adestrado. Por quê, afinal de contas, é assim? Por quê o vovô sentiu pena? Os corvos podem mesmo ser adestrados?

Minhocas, não preciso nem dizer, que vão cavando seus túneis mesmo na mente dos leitores mais experimentados em poesia. Pois não é essa mesma poesia, ora essa, que nos faz reatar as pontas com o lúdico da linguagem, o lúdico da vida? Não é a poesia que nos faz pelo menos por algum tempo crianças perante o texto?



MANEIRAS.
Para uma criança de 1918

Meu vovô sempre dizia
quando a gente ia de trem:
"Nunca deixe, minha neta,
de cumprimentar alguém."

Vimos um moço com pressa.
"Bom dia, senhor. Bom dia",
vovô disse, com chicote
em punho. E eu só repetia.

Então vimos um garoto
com um corvo de estimação.
"Nunca negue uma carona;
é falta de educação",

meu vovô disse. Então Willy
foi com a gente, mas a ave
fez "Craw!" e voou. Pra onde
ela foi?! Coisa mais grave!

O corvo voou um pouco
poste a poste, mais à frente.
Willy assovia — ele volta!
"Corvo mais inteligente!",

disse vovô, "Vejam só
como o corvo é bem treinado!
Não se esqueçam desse exemplo:
bicho ou gente, que educado!"

E assim que os carros passaram,
tudo se tornou um caos,
mas vovô disse: "Bom dia!"
com animação das boas.

E depois: "Assim as éguas
vão perder as estribeiras!",
no que seguimos a pé
conforme as boas maneiras.

§

MANNERS.
For a Child of 1918

My grandfather said to me
as we sat on the wagon seat,
"Be sure to remember to always
speak to everyone you meet."

We met a stranger on foot.
My grandfather's whip tapped his hat.
"Good day, sir. Good day. A fine day."
And I said it and bowed where I sat.

Then we overtook a boy we knew
with his big pet crow on his shoulder.
"Always offer everyone a ride;
don't forget that when you get older,"

my grandfather said. So Willy
climbed up with us, but the crow
gave a "Caw!" and flew off. I was worried.
How would he know where to go?

But he flew a little way at a time
from fence post to fence post, ahead;
and when Willy whistled he answered.
"A fine bird," my grandfather said,

"and he's well brought up. See, he answers
nicely when he's spoken to.
Man or beast, that's good manners.
Be sure that you both always do."

When automobiles went by,
the dust hid the people's faces,
but we shouted "Good day! Good day!
Fine day!" at the top of our voices.

When we came to Hustler Hill,
he said that the mare was tired, 
so we all got down and walked,
as our good manners required.

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